terça-feira, 15 de outubro de 2013

Livro do frio

Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.
Isto era o destino:
chegar à margem e ter medo da quietude da água.

Antonio Gamoneda

domingo, 6 de outubro de 2013

Loucura assumida,
 loucura compartilhada,
 loucura disfarçada, 
e dignificada, mas de qualquer maneira loucura...

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.


cora coralina - das pedras

terça-feira, 10 de setembro de 2013

"Tudo está preparado para a vinda das águas.Tem
uma festa secreta na alma dos seres.O homem nos 
refolhos pressente o desabrochar.
Caem os primeiros pingos.Perfume de terra molhada
invade a fazenda.O jardim está pensando...
Em florescer.

Manoel de Barros (Livro de Pré-Coisas)
vida.
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira