sábado, 24 de maio de 2014



A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo que
provavelmente pedi e finalmente tive, veio, no entanto me deixar carente como
uma criança que anda sozinha pela terra. Tão carente que só o amor de todo o
universo por mim poderia me consolar e me cumular, só um tal amor que a
própria célula-ovo das coisas vibrasse com o que estou chamando de um amor.
Daquilo a que na verdade apenas chamo mas sem saber-lhe o nome.

Paixão Segundo G.H

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Pés no Chão Cabeça nas Estrelas 



Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 6 de maio de 2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Da noite

"Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.

Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.

Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.

Como te amar, sem nunca merecer?"

Hilda Hilst

terça-feira, 18 de março de 2014

despedacei-me tanto
de pedaço em pedaço
de pranto em pranto
que no final ficou apenas
um resto do resto:
virei partícula.

fiquei que fiquei
no limiar do normal
num desencanto epidêmico
esperando pelo nada
(e isso é coisa
que pode levar
muito tempo).

não espero ninguém
e se o nada for alguém
então isso vale
para o nada também.

 Vaner Micalopulos

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O fim da estória

Eu nunca sei quando as estórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem término.
Talvez por ser mais espectador, ou coadjuvante, do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano.
As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa.
A deixa que nunca vem.
Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé. Talvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público.
Enceno só para mim uma tragicomédia.
A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo.
Às vezes não ouço.
Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula...
[...]

queimando, queimando, queimando..

Carriles e eu.