terça-feira, 15 de janeiro de 2013

estrela da manhã



Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

manuel bandeira

domingo, 18 de novembro de 2012



Tenho da vida alguns pedaços engasgados
Alguns dias partidos
Divididos
Em feixes de ternura
E poeira.
Tenho uns dias sentidos
Quase nada
Uma janela seca
Empoeirada
Cheia de chuva
Do lado de fora.
Tenho às vezes memória
Às vezes vontade
Às vezes penso em cantar mas depois esqueço
Às vezes
Você me reparte

autor desconhecido

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ou se tem sol ou não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo dinheiro e não compro doce,
ou compro doce e não guardo dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Horas Rubras




Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve e branca e misteriosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

“E foi nesse segundo que Tadzio sorriu, que lhe lançou um sorriso eloqüente, intimo. Encantador, aberto, que só lentamente lhe descerrava os lábios. Era o sorrir de Narciso debruçado sobre o espelho da água, aquele sorriso profundo, enfeitiçado, enlevado, com o qual estende os braços à margem da própria beleza. Um sorriso um tanto forçado, desfigurado pela inutilidade do desejo de beijar os lindos lábios da sua sombra, sorriso coquete, curioso, levemente inquieto; sorriso seduzido e sedutor.”
Vou pedir a titia que vista uma roupa de fada e me transforme num peixe. Deve ser boa a vida de peixe de aquário, murmurei.
- Deve ser fácil. Aí eles ficam dia e noite, sem se preocupar com nada, há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água... Uma vida fácil, sem dúvida.
Mas não boa. Não se esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.
- No mar seriam devorados por um peixe maior mãezinha.
- Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha.
Nesse aquário não há vida.”

Lígia Fagundes Telles, Verão no Aquário, cap IX, pág 131.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012